A imponderável Sofia
Naquela manhã de setembro, Sofia acordara verdadeiramente empertigada. Custou para mover-se sob os lençóis de linho egípicio e permitir que as pálpebras vencessem o medo inescapável de conceber a luz de mais um dia imutável e repleto de sordidez.
Há muito não usava pensar sobre questões comezinhas do cotidiano – a metafísica, a fome, os desvalidos espalhados pelos faróis afora, o silêncio e a completa ausência de um olhar fraterno.
Ao longo de 60 anos tivera uma vida relativamente digna, mas agora... É verdade que sua família construíra um império à base de muito trabalho graças à plantação de soja e cana-de-açúcar, mas nos últimos anos em que o País ascendera à condição de celeiro do mundo, os bens quintuplicaram e, com eles, toda a ausência de tempo, as festas intermináveis, os sorrisos ensaiados, as viagens ao exterior, os jantares de negócios e todas as dimensões, angústias e idiossincrasias do poder.
Da pacata vida do Mato Grosso absolutamente nada restara, sequer suas marcas de expressão, que sucumbiram sob o efeito do milagroso botox. Seus seios não eram mais os de uma mãe, mas o gracioso mamilo de uma boneca cibernética movido por uma prótese de silicone e seu guarda-roupa tornara-se um verdadeiríssimo acervo de grifes.
Sofia tinha receio de se olhar no espelho todas as manhãs, porque embora fosse uma desejada dama da alta sociedade, não se reconhecia. Ela tinha a exata noção de que fôra arremessada às altas rodas da sociedade paulistana e o que durante muitos meses causara-lhe euforia e prazer, hoje se assemelhava ao torpor.
A mulher suspeitava que o diálogo com seu marido Jeremias nunca mais fôra o mesmo e que todas as relações estavam entremeadas por interesses, ostentações, disputas, solidões disfarçadas e um vácuo – um vácuo praticamente insuportável –, que fazia dela e daquelas pessoas que a circundavam reféns de si mesmos.
Aquele condomínio era a mais reveladora confirmação de todas as suas suspeitas, afinal tudo era praticamente perfeito e, nada, absolutamente nada é tão perfeito assim.
Pela primeira vez nos últimos 37 meses, Sofia resolvera pegar carona na metafísica. Estendeu a mão sobre o criado-mudo e recolheu seu espelho e a escova de cabelos. Sentou forçosamente e iniciou um ritual de pentear os cabelos e olhar sua imagem refletida no espelho como nunca mais fizera.
A mulher permaneceu assim diante horas e reteve-se a cenas de inúmeros momentos de sua vida. Assombrou-se ao constatar que ali, no Condomínio Parque Cidade Jardim, embora houvesse absolutamente tudo à mão, era uma prisioneira e assim o seria para todo o sempre.
Ela abandonou o espelho e levantou-se resoluta. Banhou-se de forma lépida e colocou o seu mais belo vestido Jean Paul Gaultier. Aprontou uma mala com as roupas que mais apreciava e deixou-a sobre a cama descansando...
Dirigiu-se ao Emporio Fasano e fez uma deliciosa refeição, sorvendo exatamente uma garrafa de Chateau d’Yquem Sauternes com a maior sobriedade de toda a sua existência.
Quando se fartou com a sobremesa soufflé de limão siciliano, pediu um café extremamente forte e deixou uma polpuda gorjeta ao garçom em cheque – a exata quantia que permitiria aquele homem comprar ali mesmo, naquele condomínio, um apartamento – e, para não constrangê-lo, deixou um bilhete no guardanapo junto à conta.
Dali seguiu para a Casa do Saber e foi assistir a uma palestra sobre Rousseau. Encontrara suas amigas endinheiradas embevecidas com o néctar da filosofia, mas ainda assim não se furtaram a lhe dizer o quão ela estava exuberante naquela tarde, como nunca estivera antes e com um detalhe: “Sofia, é impressionante como tens hoje um inescrutável brilho no olhar!” – revelou Maria de La Encarnacion, talvez a única pessoa que, nos últimos dias, tivera sido cúmplice de suas elocubrações mais fantásticas.
Sofia agradecera as amigas e voltou ao seu apartamento com uma euforia outra. Olhara detalhadamente cada canto, contudo descansou os olhos demoradamente no retrato de Jeremias, passou delicadamente os finos dedos sobre a imagem e sorriu. Colocou seu casaco negro.
Ela recolhera sutilmente a mala, que estava sobre a cama, e foi aos poucos sendo invadida por um sentimento de liberdade, de paz e de plenitude.
Pacientemente, conduziu-se até o hall principal do condomínio sorrindo amavelmente e sentou-se em uma confortável poltrona colonial estilo Luis XVI, do século XVIII, vermelha, que ali estava. Depositou sua valise ao lado. Retirou do bolso de seu casaco sua mais preciosa herança – um revólver de ouro, que pertencera ao seu falecido pai – e apontou para a própria cabeça e, em menos de uma fração de segundo, seu pescoço pendera para a esquerda.
No hall, o espanto, o luxo, os arregalados olhos, uma pomba branca que circundou vagarosamente o sangue espalhado pelo chão e, enfim, a liberdade.
Sílvia Garcia
07/05/2008
segunda-feira, 25 de janeiro de 2010
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